HOSPEDANDO FREI DAMIÃO

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RAMALHO LEITE

 

 

As missões de Frei Damião eram um acontecimento em qualquer cidade do brejo ou do sertão paraibanos. Nos anos 1950 Borborema era premiada com a visita do capuchinho, sempre acompanhado do irritadiço Frei Fernando. Eram hóspedes dos meus pais. Um primeiro quarto da casa onde morávamos ficava reservado para os dois missionários. Sua caminhada começava pela madrugada. Quem o desejasse acompanhar teria que pular fora da rede ou da cama por volta das quatro horas da manhã. A escuridão ainda era total. Ao surgir os primeiros raios de sol, o suor já contemplava parte dos caminhantes, mesmo nos tempos de clima frio.

Em uma dessas missões pulei cedo da cama, vesti-me apressado e ainda limpando os olhos me joguei na rua. Corri para alcançar a procissão que já se derramava ligeira pelas ruas empoeiradas da Vila. Quando o dia clareou, pude olhar para as minhas calças curtas. Os bolsos estavam com seu forro à mostra. Eu vestira as calças pelo avesso. Como todos só prestavam atenção ao santo homem, fui recuando, recuando, até chegar, de costas, ao final da multidão. Aí então, parti correndo para casa onde me vesti corretamente e voltei ao cortejo.

Minha mãe cuidava pessoalmente dos seus hóspedes. Acompanhava sua alimentação e sempre reservava as melhores iguarias para a mesa dos frades. Alguém trazia uma macaxeira boa, outro, batata; e frutas as mais diversas. Eu queria participar desse manjar mas minha mãe não deixava. É pecado, dizia. O presente fora para Frei Damião. Afastava-me temeroso de ofender aos céus comendo das frutas trazidas para o frade. Umas beatas cuidavam de ajudar minha mãe. Forravam as camas, varriam o quarto e esperavam ganhar as bênçãos divinas com a proximidade daquele homem que diziam santo. Pela manhã, a cama de Frei Damião amanhecia com os lençóis intactos. Nenhum amasso que indicasse que dormira alguém naquele catre.

– É um milagre, dizia uma beata.

-O homem dorme a noite toda e não amassa os lençóis! acrescentava outra.

Que milagre que nada! O pobre homem, cansado das suas caminhadas diurnas e noturnas, já começava a entortar a coluna cervical e a adquirir aquele formato curvilíneo que encostava o seu queixo ao peito. Por recomendação médica, dormia no chão. Eis o mistério.

As missões de frei Damião eram uma festa. De toda parte vinha gente para ouvir o sermão noturno do capuchinho. A realização do crisma atraía multidões. Confessar-se com frei Damião era uma benção. Muitos faziam promessas a pagar com o ato de contrição perante o frei. Em uma dessas realizações missionárias meu pai foi padrinho de mais de cem crianças e adolescentes. Uma multidão passou a chamá-lo “padim” Arlindo. Frei Damião nunca perdeu o sotaque italiano. Pouco se entendia da sua fala, mas bastava o som da sua voz para alimentar a fé daquele povo. E os presentes chegavam: sacas de feijão, de arroz, de laranja, garajás de rapadura, cachos de banana, farinha de mandioca e sacos de batata doce. Quando o frade ia embora, um caminhão seguia atrás com os presentes, diretamente para o co nvento São Félix de Cantalice, no Recife, onde um dia seria sepultado.

As lembranças de Frei Damião são da infância. Na idade adulta avistei-o em missões em Bananeiras e Solânea. Quando candidato a deputado em 1974, regressando de Itaporanga, à noite, parei em Catingueira para ouvir frei Damião. Entrei pela porta de trás da Igreja e encontrei frei Fernando. Puxei conversa:

– Frei Damião tá cansadinho não está, frei Fernando?

– Cansadinho tou eu, dirigindo esse carrão por essas estradas cheias de lama… (A rodovia  estava em construção pelo governo Ernani Satyro)

Continuava o mesmo frei Fernando que conheci quando eu era uma criança pequena lá em Borborema.

Havia rejeição de alguns padres ao estilo de frei Damião. Ele passou, então, a só visitar as paróquias quando convidado pelos vigários locais. No brejo, voltou muitas vezes a Dona Inês, hóspede de Chico Adolfo, pai do monsenhor Nicodemus que, depois, vigário de Guarabira, fez de frei Damião seu missionário mais frequente. Guarabira criou uma afinidade com o capuchinho e lhe concede verdadeira devoção. O nome de frei Damião serve de patrono a todo tipo de comércio. A cidade construiu um memorial em sua homenagem e uma das maiores estátuas do Brasil. Todos os anos, o brejo é mobilizado para a romaria de frei Damião. Seus restos mortais, porém, permanecem no convento do Recife, no interior da Igreja de Nossa Senhora das Graças. Dizem que, ainda hoje, é frei Damião que mantém a casa.( Cap.6 do meu livro ERA O QUE TINHA A DIZER, em edição)

 

 

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