TUA CANTIGA TAMBÉM É MINHA

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sexta-feira, 4 de agosto de 2017 - 11:57

 

 

Demétrius Faustino

 

Morou dois anos em Roma; aos oito inventava marchinhas de carnaval; foi campeão de futebol de botão; sonhava ser cantor de rádio e imitava João Gilberto; já teve de forma temporária um elefante no quintal de sua casa; nos anos 70 foi ícone da luta contra a ditadura; Toquinho foi seu primeiro parceiro; é assíduo leitor da literatura francesa e russa, etc.

Falo de quem? Bem, prá quem conhece percebe de logo que me refiro ao homem com a cor ardósia nos olhos, ao homem de sorriso largo, cuja imagem que se criou no item timidez é extremamente exagerada.

Falo de Chico Buarque de Holanda, o maior poeta vivo do Brasil, que após seis anos de lançamento do disco “Chico”, esse extraordinário compositor lança o “Caravanas”, sendo assim o 23º álbum solo da sua carreira, que conta com sete músicas inéditas e duas regravações de composições laboradas por ele, contudo, nunca  gravadas, através de sua voz.

Peculiaridade dos trabalhos de Chico Buarque, o álbum está envolvido de incógnitas e, até onde se sabe, apenas os nomes de duas faixas foram divulgadas: As Caravanas Tua Cantiga.

E ao ver e ouvir o clipe oficial da música Tua Cantiga nas redes sociais, cuja letra é de Chico e a melodia do pianista Cristovão Bastos, de pronto votei pelos versos que entendi serem os mais lindos dessa nostálgica e cativante toada urbana, onde Chico sobrepõe a longinquidade, o tempo e até a expectativa de outros amores na vida da amante e diva para descerrar:

Se as tuas noites não têm mais fim

Se um desalmado te faz chorar

Deixa cair um lenço

Que eu te alcanço

Em qualquer lugar.

E na primeira estrofe da música Chico diz:

Quando te der saudade de mim

Quando tua garganta apertar

Basta dar um suspiro

Que eu vou ligeiro

Te consolar. 

O compositor Alberto Salgado, um dos vencedores da 28ª Edição do Prêmio da Música Brasileira com Cabaça D’água, que obteve de Chico boa avaliação para esse trabalho, tiete como o ora subscritor, assim afirmou: Nas duas primeiras vezes que ouvi, cheguei a chorar de tão emocionado, pela maneira como Chico conduz sua poesia, ao fazer das palavras verdadeiras obras de arte. A melodia de Cristovão Bastos trouxe grande emoção sob a textura de um piano bem arranjado em compasso ¾, com uma mistura rítmica que passeia pela ciranda e até mesmo algo como um samba bem sutil.

Concordo plenamente, mas sem esquecer que a sutileza e a habilidade de Chico Buarque para construir letras cotidianas, aparentemente singelas, mas de uma construção genial, sagaz e tecnicamente perfeita, estão reveladas mais uma vez em Tua Cantiga, onde o tema amor volta a ser inspiração do poeta, seduzindo mais e mais a todos aqueles que alimentam paixão ilimitada pela sua obra.

Como bem narrou a escritora Regina Zappa, em seu livro intitulado “Chico Para Todos”, ele é humano, moleque, inteligente, cercado pelo mistério da criação. O menino travesso e o jovem romântico. O adulto em seus momentos de criação. Mas é, sobretudo, o Chico artista, cantor e compositor, admirado e idolatrado e que permanece, até então, misterioso.

De fato, Chico é aquele ser meio misterioso que mexe com o imaginário das pessoas – aquele artista genial, sensível. Como diria Maria Bethânia: Não conheço uma coisa que ele tenha feito que não me toque, que eu não goste. Tem alguma coisa de verdade, da qual, mesmo que quisesse, não conseguiria se livrar.

Ruy Guerra, por sua vez, foi quem melhor retratou Chico:

Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade sistemática, silêncios eloquentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua – tudo à flor do coração, em carne viva… Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis, mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é uma ficção – saibam. Inventado porque necessário, vital, sem o qual o Brasil seria mais pobre, estaria mais vazio, sem semana, sem tijolo, sem desenho, sem construção.

Chico, Tua Cantiga também é minha.

João Pessoa, Agosto de 2017.

 

 

 

 

 

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